sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Ética e fotografia na era digital
A era digital abriu um mundo de possibilidades em termos de "realização fotográfica" mas, como aconcete muitas vezes, vai-se longe de mais. No concurso fotográfico Wildlife photographer of the year, com um prémio de 10.000 £, promovido pelo Museu de História Natural britânico e pela BBC Wildlife Magazine, um concorrente foi longe demais. Este concorrente, cujo nome não menciono para não gerar mais publicidade, ganhou o primeiro lugar com uma fotografia de um lobo ibérico a saltar uma portada de um terreno. Quando vi a foto achei-a intrigante embora muito interessante. Intrigante porque não imaginava que um lobo desse um salto daqueles. Vejo-os como animais tímidos e cautelosos demais para um salto tão intrépido. Dois meses depois leio a notícia da desclassificação deste concorrente, sendo obrigado a devolver o prémio atribuído. Contudo as revistas e toda a publicidade à volta da fotografia beneficiaram (ou não) este concorrente que não soube respeitar os limites impostos pela seriedade e pela ética. Vários especialistas de vida animal concluíram que um lobo selvagem nunca daria um salto daqueles, em vez disso atravessaria a portada facilmente em vez de se arriscar num tal salto. Provou-se que o concorrente tinha usado e treinado um animal "modelo" - há pessoas que domesticam lobos - para o efeito, violando o espírito do concurso que era o de captar a vida selvagem, e a regra nº 10 que o referia explicitamente. Espero que este exemplo sirva para ajudar a travar muito do ímpeto à volta da fotografia dos nossos dias, em que vale tudo para obter uma imagem de belo efeito.
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